• Álvaro Dezidério

A pandemia, a mente, e nossas finanças pessoais


Estamos em um período complexo. Para dizer o mínimo. Não há como você ligar a televisão ou acessar a internet e não encontrar uma notícia ruim sobre mortes, hospitais lotados, remédios que funcionam ou não funcionam, e vacinas que estão prontas mas não foram testadas. É impossível não se assustar.


A pandemia trouxe uma série de problemas para nós. Sendo um destes problemas a nossa ansiedade. Ansiedade é um excesso de preocupação com o futuro. Preocupar-se um pouco faz parte da natureza humana. Preocupar-se muito não é saudável.


E qual é o principal problema da ansiedade quando falamos de finanças pessoais?


Antes de explicar é preciso conversarmos um pouco sobre Daniel Kahneman, prêmio Nobel de economia, e seu famoso estudo sobre como nossa mente toma decisões.


Acredite, não é como você imagina que seja.


Gostamos de pensar que somos racionais e analíticos na maior parte do tempo. Que sempre decidimos ponderadamente, avaliando todas as informações.


Para os mais antigos, somos parecidos com o Dr Spock, o personagem de Jornada nas Estrelas, que sempre salvava a nave e a tripulação ao final dos episódios com cálculos complexos feitas de cabeça.


Ja os mais jovens gostam de pensar que tomam decisões importantes como Sheldon Cooper, o jovem físico da série Big Bang Theory, que faz análises complexas e racionais até sobre a compra de um cachorro-quente para o jantar.


O que Daniel Kahneman mostrou é que nosso processo de tomada de decisão se assemelha muito mais a Homer, o chefe da família Simpson, da famoso desenho Os Simpsons, do que a qualquer outro personagem.


Somos tão impulsivos quanto Homer.


E por que decidimos assim?


Nossa mente se divide em dois sistemas, o sistema 1 que chamaremos de pensamento rápido, e o sistema 2 que chamaremos de pensamento lento.


O pensamento rápido é onde formamos as primeiras impressões. Decidimos em 15 ou 20 segundos se simpatizamos com alguém ou não, se a comida é boa ou ruim. Também é onde reagimos instintivamente com respostas baseadas em nosso conhecimento prévio.


Ele funciona quase como um piloto automático com um bom registro de memória. Ele busca informações armazenadas em nossa mente e nos ajuda a tomar decisões rápidas.


Qual comida não gostamos? Qual bebida preferimos? O que nos traz prazer e satisfação? O que gera dor física e como evitá-la?


Exceto no caso de experiências novas, está tudo em nossa memória e rapidamente o sistema 1 nos faz decidir.


É por isso que na maioria das vezes parecemos impulsivos (Homer Simpson, lembra?). Nosso sistema 1 nos faz escolher rapidamente sobre a maioria das decisões do dia.


Ja o sistema 2 é nosso pensamento lento. É a parte da nossa mente que utilizamos para raciocínios mais elaborados, cálculos complexos, e uma tomada de decisão que requeira a avaliação de um conjunto de informações.


Multiplicar 279 por 37 sem calculadora, escrever um relatório sobre um tema, a avaliação estratégica de nosso negócio ou sobre com quem pretendemos passar o resto de nossas vidas. Este é o sistema 2, ou nosso pensamento lento.


E a verdade, e a razão de Daniel Khaneman ter ganho o prêmio Nobel de economia, é mostrar que a maior parte das decisões de nosso dia a dia são controladas pelo sistema 1.


A gente pensa que pensa muito sobre tudo, mas na verdade decidimos muito mais intuitivamente do que gostaríamos.


Até porque se todas as decisões, desde que música ouvir no spotfy pela manhã indo para o trabalho, até o que almoçar todos os dias, fossem precedidas por um avaliação complexa, antes das 14:00hs estaríamos tão esgotados que dificilmente conseguiríamos chegar ao final do dia funcionais.


E o que isso tem a ver com a ansiedade?


Infelizmente tudo.


Ansiedade é o medo do futuro. E o medo é uma sensação ruim.


Nossa mente é uma máquina de compensar. Se sentirmos dor ela vai tentar buscar como aliviar esta dor. E normalmente lembrando você do que lhe traz prazer e satisfação, fazendo com que vá atrás disto.


Esta é a razão pela qual quando você está chateado com um notícia ruim, um desgate no trabalho, uma briga com o cônjuge, ou algum abalo emocional, tende a buscar compensações através de prazer e satisfação.


Você come demais, bebe demais, e também compra demais. Todos os três elementos são fontes de prazer. São processos que nos trazem prazer e permitem - temporariamente - compensar a dor gerada pela ansiedade.


É normal e natural. É um processo humano. Mas é aqui que pode morar o problema. Um grande problema.


O marketing e a propaganda sabem disso. E é aqui que eles vão tentar capturar a sua atenção e fazê-lo gastar mais do deveria. É mais fácil pegar você neste momento. Sua mente está atrás de satisfação porquê está sofrendo com o medo gerado pela ansiedade.


Não é por acaso que entrar no shopping é uma experiência agradável.


Querem te agradar pelo visual e olfato. As lojas já fazem isso, com cores bem organizadas, odores agradáveis e música ambiente. É preciso convencer sua mente que a experiência ali é prazerosa. E você já estará a um passo de comprar o que não precisa, apenas para se sentir bem.


A combinação entre ansiedade e o sistema 1 tomando decisões quase no piloto automático é uma ferramenta poderosa para complicar a sua vida financeira.


E como evitar que esta combinação acabe com suas finanças?


Não é possível desligar o sistema 1. Ele funciona desta forma para nossa sobrevivência.


Mas é possível lidar com a ansiedade. É preciso pensar sobre as razões dela e como você pode administrá-la.


Se você consegue não assistir as notícias terríveis sobre a pandemia, se você consegue praticar atividades físicas regularmente, ou se é possível colocar sua atenção em outras coisas, tais como livros, filmes, ou qualquer coisa que mude seu foco.


Também existem situações onde a pandemia resultou na perda de emprego.


Neste caso é preciso que você se organize financeiramente para lidar com esta perda de renda temporária.


O que é possível cortar rapidamente?


O que é possível negociar com credores?


É muito importante sentar e conversar com a família sobre a situação atual, e como vocês juntos vão enfrentá-la. É fundamental que todos estejam alinhados para evitar que um membro fique sobrecarregado e ansioso.


Existem diferente formas de lidar com esta situação. Mas saiba que ela é passageira. O importante é que você não seja levado a tomar decisões que compliquem sua vida financeira por muitos e muitos anos.


O autoconhecimento é uma das ferramentas mais importantes para a nossa evolução. Saber como funcionamos e como tomamos nossas decisões, nos ajudará a enfrentar os desafios externos, como por exemplo a pandemia. E com certeza você tomará melhores decisões no presente para o seu futuro.

Boa jornada.

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