• Álvaro Dezidério

Blink - A decisão em uma piscar de olhos



Malcolm Gladwell é meu iconoclasta preferido. Todos os seus livros são abordagens alternativas, sem abrir de uma boa pesquisa, para problemas conhecidos. E com Blink ( “Piscar de olhos” em uma tradução minha) não foi diferente.


A ideia principal do livro é interpretar o que é a tal da intuição. Porque as primeiras impressões são formadas, de que forma elas nos ajudam e de que forma elas podem nos levar a conclusões equivocadas.




A discussão é fantástica.


“Fatiar fino”, isto é dividir o conjunto de informações em frações menores de forma que possamos reconhecer padrões é uma das maneiras que o nosso subconsciente utiliza para criar as tais das primeiras impressões.


Na verdade chamamos de intuição (ou aquela coisa do santo que bate ou não bate) um complexo processo que ocorre em nossa mente em alguns milésimos de segundos.


Deixe-me dar um exemplo: Em uma reunião de trabalho em que você conhece alguém novo e fica com uma excelente impressão desta pessoa em 2 ou 3 segundos, sua impressão nada tem a ver com sua capacidade intuitiva (gostamos de pensar assim para achar que estamos no controle). Nosso cérebro (the mind of the brain, para ser mais exato) organiza as informações que recebemos e associa com padrões que sejam conhecidos.


Se é uma mulher bonita, magra, e com cara de modelo, e estamos em uma empresa de engenharia, os padrões não batem, e ficamos no mínimo, receosos. Obviamente que tudo pode mudar ao longo de uma primeira conversa – para melhor ou para pior – mas a formação da impressão está colocada. O mesmo caso em uma empresa de moda gera o resultado oposto.


A associação das informações percebidas com os padrões existentes em nosso conjunto de informações forma uma percepção positiva. Afinal, bonita, magra e com cara de modelo, com certeza é uma ex-modelo que virou uma super executiva, dirige centenas de homens e mulheres. Aí concluímos tudo, sem que tenhamos nenhuma informação relevante. Apenas o que vimos somado ao nosso padrão.


Costumamos simplificar estas associação de padrões com a palavra estereótipo (ou algo do tipo, afinal tudo tem que fazer sentido sempre). Se você acha que nunca pensou assim, que é um ser humano 100% analítico, e que não tira conclusões precipitadas, pense naquela vez em que viu uma loira espetacular em um carro que custe mais de seis dígitos, bem vestida e com cara de madame concluindo que ela casou bem, ou é uma atriz famosa.


Como concluiu isto em poucos segundos, você eliminou a possibilidade de ela ser uma executiva de uma grande empresa ou uma neurocirurgiã que acabou de sair de uma cirurgia de 12 horas bem sucedida, mas que gosta de se arrumar, se cuida e é muito vaidosa. Na verdade, dado o padrão de associação em sua mente, você acabou de eliminar qualquer outra hipótese sobre a moça.

Um outro exemplo bastante comum: você trabalha no departamento de vendas de uma grande empresa e acabou de conhecer a nova gerente de marketing de sua empresa, uma mulher negra belíssima. Um colega seu fala do currículo dela e você acha inusitado, mas não impossível, ela ter mestrado na França e falar 3 línguas. Todavia, no churrasco da firma depois de algumas cervejas e muita alegria, você acha um absurdo ela não saber sambar. Tanto o inusitado quanto o absurdo são a sua mente fazendo associações com padrões que já conhece. Em resumo, a formação de padrões mentais, que é útil para nossa sobrevivência, também é a fonte de preconceitos de todos os tipos.

É disso que este livro trata de forma brilhante.


Malcolm também aborda a capacidade de ler mentes. Nada a ver com telepatia ou com o que faz o Charles Xavier do X-Men e sim a capacidade de focar nas expressões visuais do rosto ou linguagem corporal para entender se o que esta sendo dito é o que de fato pensado, ou se há alguma divergência entre a informação repassada os objetivos.


É incrível como isto é sutil e dificílimo de perceber, mas que após algum treino, as pessoas conseguem discernir entre o que é comunicado é o que de fato se quer dizer com isso. É muito além e mais complexo do que simples linguagem corporal que identifica timidez, incoerência ou dúvida, interesse sexual, cruzada de pernas, aquele blábláblá de literatura de aeroporto.


É bem mais científico do que se imagina. E é sensacional. O livro é cheio de exemplos positivos e negativos sobre como a intuição (que ao final do livro você tem certeza que não significa o que as pessoas falam por aí) podem ajudar ou atrapalhar tremendamente nossa vida. Malcolm fornece exemplos incríveis de como isso tem criado problemas para a polícia nos Estados Unidos (basta lembrar de Rodney King e dos tumultos em Baltimore, e de Gerge Floyd).


Quem se interessa por um tipo de conhecimento que é restrito aos especialistas da área, vale gastar um tempo com Blink. Ele, como todos os livros de Gladwell, é didático e bem construído, permitindo que se façam entender seus pontos de vista sem a impressão de que ele está forçando a barra para provar um ponto. Conhecimento aplicado com um conjunto de exemplos e entrevistas com pesquisadores da área. Além de muito bem escrito. Vale muito a pena.

1 abraço de quebrar costelas

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