• Álvaro Dezidério

Felicidade Construída

Atualizado: 31 de out. de 2020


Um dos principais temas da atualidade é a felicidade. Meio que nem fome zero ou qualidade total (ninguém é contra e todos desejam que funcione) mas poucas pessoas conseguem definir o conceito, e mais importante, como isso pode se aplicar na vida prática delas. Dificílimo definir este conceito em um aspecto geral que seja aplicável, fora do ambiente científico. 


Paul Dolan consegue. 

Como um bom cientista aplicado, Dolan, através de uma extensa pesquisa científica, ora sozinho, ora com colaboradores (parte da pesquisa foi desenvolvida com ninguém menos que Daniel Khaneman) consegue definir o conceito de felicidade de forma simples e aplicável ao dia-a-dia das pessoas. E esta talvez seja a melhor parte do livro. Ele é claro, didático e não fica tentando enfiar um objeto cilíndrico em um buraco quadrado como muitos acadêmicos de excelência o fazem quando desejam traspor suas pesquisas para o mundo real. 


A ideia principal do livro é que a felicidade pode ser definida como uma combinação entre senso de propósito e experiências felizes. Simples não? Na verdade, longe de ser. Deixe-me tentar resumir o assunto, correndo o risco de simplificar demais o excelente trabalho de Donovan. 


Experiências felizes são momentos em que as pessoas conseguem encontrar a felicidade em eventos que lhes tragam prazer. Beber algo que gostam, estar na presença de quem gostam, viajar, comer ou assistir a um filme que você goste muito. São momentos felizes, ou como o autor chama, “máquinas” de obter prazer.

E qual o problema com estes momentos? São momentos. Eles passam. E a medida que são repetidos, o princípio da utilidade marginal se manifesta. Utilidade marginal é um termo cunhado pelos economistas para explicar a diferença do primeiro copo de água que você toma quando está louco de sede, e o décimo copo que só te estufa. Ao repetir uma experiência prazerosa, ela já não gera o mesmo nível de utilidade seguidamente, a não ser que seja em intervalos bastante grandes de tempo. Mas as pessoas não conseguem ficar sem o prazer, e passam a procurar cada vez mais experiências seguidas com as suas máquinas de prazer. No limite, algumas tornam-se hedonistas compulsivos, mas eternamente insatisfeitos. Se ficou muito abstrato, pense em um consumista compulsivo que sempre compra algo diferente porque o ato da compra lhe dá prazer, mas que já está com cartão de crédito totalmente estourado. Todo mundo conhece alguém assim. 


Já o senso de propósito refere-se à felicidade de longo prazo. Por exemplo, ter tempo para criar filhos e ter certeza de que sua influência sobre eles é positiva. Construir algo perene, ou simplesmente ter a sensação que se está produzindo algo de longo prazo e que gera impactos sobre pessoas ou sobre a sociedade, por exemplo. Isto é senso de propósito. 


A combinação entre ambos ao longo do tempo é, na visão de Dolan, o que gera felicidade. Apenas a máquina de prazer ou apenas o senso de propósito não conseguem proporcionar a chamada felicidade. A combinação de ambos, sim. 


Deixe-me dar um exemplo. Um milionário consegue todas as experiências de prazer que deseja, quase sempre quando deseja. Uma viagem exótica, um novo carro, uma conquista amorosa-sexual, etc... mas então porque encontramos inúmeros casos de gente que tem tudo, mas não consegue livrar-se dos anti-depressivos e remédios para dormir? Ou de pessoas que são aparentemente bem-sucedidas, mas de uma hora para outra largam tudo e saem em viagens de autodescoberta ? 


Por outro lado, pense em uma pessoa que tem um trabalho ou com um forte senso de propósito, que sabe que está fazendo algo importante. Um colega de trabalho, um amigo, alguém com fortes crenças religiosas, mas que são pessoas que só fazem isso. E todos são muito chatos. Acho que todo mundo conhece alguém que fica repetindo o tempo inteiro que o que faz é muito importante, não se diverte, não conta piada, não ri de si, e fica indignado quando os outros não o veêm com a mesma seriedade que atribui a si mesmo. Esse o ser que têm apenas senso de propósito, mas não consegue ter felicidade porque, embora ache que o que faz é muito importante, não possui momentos com suas máquinas de prazer. 


E neste ponto é que a pesquisa de Dolan faz a diferença. Apenas experiências de prazer sem senso de propósito não conseguem gerar felicidade. Apenas senso de propósito, sem prazer, também não consegue gerar felicidade. Dolan demonstra que a felicidade – cientificamente falando – depende da combinação entre estes dois elementos ao longo do tempo, como uma espécie de trade-off (troca compensatória) distribuído no tempo. 


As vezes precisamos de mais prazer, e vamos beber com amigos, visitar os pais, passar horas com gente que você gosta e que gosta de você de maneira sincera. Também paramos o que estamos fazendo para ver um filme, um livro, ou um programa que julgamos engraçado. Em outros momentos precisamos ter a certeza (ou uma forte sensação) de que o que fazemos é importante para nós, ou para outras pessoas e, sobretudo, há um propósito. Criar filhos, serviço voluntário, uma pesquisa acadêmica que vai mudar o mundo, ou até um aplicativo que – pretensamente – vai acabar com umas 10 doenças tropicais, ou simplesmente ajudar alguém. A certeza de que fazemos parte disso, nos gera sendo de propósito.


A ideia é incrivelmente simples, mas poderosa. 


O livro é desenvolvido sobre uma série de exemplos práticos aplicados ao cotidiano das pessoas. Talvez um dos maiores talentos do autor seja explicar complexas teorias comportamentais com exemplos bastante simples e que qualquer pessoa pode se identificar. 


A tese sobre alocação da atenção é sensacional. É uma ótima explicação científica e bem fundamentada do conceito de que as coisas são exatamente do tamanho que atribuímos a elas. Se tivemos uma frustração e escolhemos torná-la o centro de nossa atenção, ficamos menos felizes. Se fazemos o contrário, a probabilidade de ser mais feliz é elevada. E tudo isso muito bem explicado com pesquisas e exemplos no livro. 


Agora, que tal combinar isso com nossas escolhas ?


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