• Álvaro Dezidério

Michael Jordan e Metas de Inflação


Em tempos de opiniões sem fundamentos, verdades de whatsapp, e desinformação em redes sociais, vale o conselho do grande Michael Jordan, o pelé do basquetebol americano: Quando tudo parecer nublado volte ao básico.


Como estamos próximos de uma importante reunião do COPOM, o Comitê de Política Monetária, a desinformação e as opiniões sem conhecimento sobre o tema reproduzem-se como coelhos na mídia. A maior parte errada, ou utilizando o tema para provar um ponto de quem emite a opinião.


É importante que, antes de opinar sobre o que COPOM o deve fazer, saibamos o que o motiva.


Qual é o seu objetivo na sociedade?


Vamos começar pelo básico: O que é o sistema de metas de inflação.


O sistema de metas de inflação tem como objetivo convencer a sociedade de que a autoridade monetária, o Banco Central, fará todos os esforços possíveis para que a inflação observada no país convirja em direção à meta, definida pelo Conselho Monetária Nacional. De preferência que ela fique igual.


Por que isso é importante?


A Inflação é um imposto sobre todos, e que deixa todo mundo mais pobre, porém os mais pobres da sociedade sofrem mais.


Pelo lado do consumidor: O poder de compra das famílias é definido pela razão entre o seu salário e os preços dos bens e serviços que a família consome. Se o seu salário é 100 e o preço médio do que você consome em bens serviços é 50, seu poder de compra é 2.


Se os preços sobem de 50 para 100, seu poder de compra cai para 1. Literalmente você vai consumir a metade do que consumia antes, gastando a mesma coisa. Este é o efeito da inflação pelo lado do consumidor.

Agora veja pelo lado do produtor: Suponha uma padaria. Imagine que o dono desta padaria tenha que definir o preço do seu pão e que não possa reajustá-lo ao longo de 12 meses. Só ano que vem. Ele faz o cálculo dos custos diretos e indiretos para chegar no pão e estabelece seu preço.


Porém, ao longo deste mesmo ano a inflação sobe e ele tem um grande aumento em seus custos. Pensou que ela seria de 4% e ela foi de 10%. Sobem os preços do trigo, da energia elétrica, dos insumos, de tudo o que ele utiliza ao longo do ano para produzir pães. Como ele não pode reajustar o preço terá que reduzir seus lucros ao longo do ano, e talvez até assumir os prejuízos.


E o que fará ano que vem? Vai se proteger.


No próximo reajuste ele vai colocar a inflação que ocorreu ano passado, 10%, e mais a sua expectativa para o ano seguinte. Como ele está preocupado em evitar o que ocorreu no ano anterior, incluirá o máximo que puder de inflação esperada no preço. Digamos que ele coloque mais 10% em seus preços, esperando que a inflação seja em torno deste valor.


Uma vez que este 10% vai para o seu preço, a inflação esperada automaticamente vira inflação realizada. E todo mundo que compra pães deste padeiro terá que lidar com este aumento. A expectativa vira realidade.

Suponha que esta padaria forneça pães para a refeição de uma escola. A escola terá que lidar com este aumento e vai repassar para a mensalidades e assim por diante. Os reajustes de preços viram um conflito distributivo. Quem pode repassar mais repassa.


Por isso a sociedade precisa acreditar que a Autoridade Monetária está comprometida com uma meta de inflação e fará de tudo para alcançá-la, da forma mais transparente possível.

Os participantes do sistema de metas são o Conselho Monetária Nacional, o Ministério fa Fazenda, e o Banco Central. O Conselho Monetário Nacional define a meta de inflação. O Banco Central por meio do Comitê de Política Monetária persegue a Inflação. E o Ministério da Fazenda cobra os resultados alcançados.


O Comitê de Política Monetária que é um colegiado formado por Diretores do Banco Central, carinhosamente apelidado de COPOM.


O COPOM se reune cada seis semanas, durante dois dias, para avaliar o estado atual da economia e, ao final destes dois dias, definir se a expectativa de inflação para os próximos 20-24 meses ficará acima da meta persistentemente, e se este for o caso tomar as medidas necessárias para que convirja em direção à meta.


O seu instrumento de trabalho é a taxa de juros básica da economia, também concedida como taxa selic. Se a inflação ameaça ficar acima da meta ele sobe a taxa selic. Se a inflação ameaça ficar abaixo da meta, ele reduz a taxa selic.


Ao final da reunião ele divulga um comunicado à sociedade. Sete dias depois ele divulga a ata da reunião para transparecer ao público tudo o que foi discutido. Transparência é fundamental para convencer a sociedade.

Caso a inflação, ao final de um ano-calendário, fique acima da meta, o Banco Central deve prestar contas ao Ministério da Fazenda, em uma carta aberta que explique três pontos:


i) Quais as razões pela qual a inflação ficou acima da meta;

ii) o que será feito para que ela retorne a meta;

iii) e em quanto tempo o Banco Central espera que isto aconteça. Esta regra também vale se ela ficar abaixo da meta.


Porém, o comportamento temporário dos preços pode ser determinado por um conjunto tão grande de fatores, muitos deles inesperados. Se o preço da carne sobe muito em novembro, por exemplo, ele pode puxar a inflação ao final do ano e deixa-la acima da meta.


Como o efeito é transitório e não permanente, o modelo de metas possui bandas de variação tanto para cima quanto para baixo, de forma que os choques temporários são tolerados.


Até porque em fevereiro do ano seguinte a inflação ja estaria em direção à meta e não faz sentido subir juros por um evento temporário.


Este é o sistema de metas de inflação e o seu funcionamento. Talvez ele seja uma das inovações mais importante na economia brasileira nos últimos 30 anos. Se você, jovem, acha que ele é pouco importante, saiba que o Brasil ficou quase 30 anos lutando contra a inflação, e somente após o plano real conseguiu domar o dragão.


3.000% de inflação anual era algo esperado e normal. Pensa na bagunça da economia? Nenhum mercado de ativos financeiros, exceto o de juros, consegue se desenvolver.


Voltando ao presente, ja é sabido e precificado pelo mercado que o Banco Central terá que implementar um ciclo de alta. Ele precisa decidir quando inicia o ciclo, se agora em março ou depois. A expectativa de inflação está sinalizando ficar acima da meta para os próximos 20-24 meses e ele precisa agir.


Mesmo com a economia bastante debilitada, a desorganização resultante do choque da covid, dos estímulos e do descompasso entre a demanda e oferta fizeram com que a inflação esteja em alta.


Mas o desemprego também esta muito elevado e implementar politica monetária neste ambiente é algo muito perigoso e difícil. Como disse um colega: não queria esta na pele de Roberto Campos em 2021. Nem eu.


1 abraço de quebrar costelas.

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