• Álvaro Dezidério

O Chale da Memória - Tony Judt


Conheci Tony Judt através de um colega interessado nas mesmas coisas que eu: Economia, História e Política. Folheando o livro O Mal Ronda a Terra na livraria catarinense fiquei impressionado como, em poucas palavras, Tony prendeu minha atenção por séculos.


Depois descobri sua obra prima, Pós Guerra, que logo vai tomar o lugar do livro a Era do Extremos (Erick Hobsbawn) na categoria de que mais gente diz que já leu, sem ter lido (parafraseando o Celso de Barros). Encontrar o Chale da Memória foi apenas a consequência.

E ainda bem.


O Chalé da Memória é uma coletânea de lembranças do autor, ditadas a uma assistente a medida que seu corpo já padecia nos estágios mais avançados da doença esclerose lateral amiotrófica (ELA) – doença neuromotora degenerativa de causas ainda desconhecidas e que desencadeia perda gradual do controle sobre os movimentos musculares, levando à morte, na maioria dos casos, em até três anos. Só pelo fato de, ao invés de ficar sentido pena de si, ele resolveu produzir um último livro, que na prática conta como um jovem judeu não praticante se transforma no meu historiador preferido, já valeu a viagem.


O livro tem este nome em função do autor gostar muito de um chalé na Suíça, onde passou algumas férias quando criança. Através da técnica dos Palácios da Memória onde os viajantes antigos utilizam a figura de palácios para lembrar de cada lugar onde estiveram, Tony prefere um Chalé nas montanhas, tentando ser mais frugal do que a técnica inicial.


Fantástico. A explicação do Luciano, o colega, é bem melhor que a minha, então cito-a: "Para, pela manhã, poder se lembrar dos seus pensamentos e ditá-los a uma assistente, ele lançou mão de uma técnica de memorização conhecida desde a Roma antiga: o “palácio da memória”. A técnica consiste em construir mentalmente um local físico (o tal palácio) e associar um passeio pelos diferentes ambientes desse local a uma sequência de ideias. Posteriormente, lembra-se do passeio e da linha de raciocínio traçada ao longo dele. Judt adaptou-se muito bem à técnica e, avesso à indulgência de palácios (“extravagâncias mais para impressionar do que para servir”), preferiu usar um chalé suíço onde passava as férias de sua infância para guardar suas memórias."


Mas o livro é melhor ainda. Da infância, aos tempos na Universidade e o choque e decepção com o sionismo, que perdurou até o final da vida, as memórias de Tony são um passeio pela Europa dos anos 60 e 70, e os Estados Unidos dos anos 70 e 80, na visão de um cara que insiste em rejeitar modismos, mas não se seduz por qualquer discurso panfletário de uma esquerda que quer arrumar o mundo através do comunismo e anda da Harley Davidson, usa Iphone, e faz compras em Miami – nas férias é claro. Como ele se tornou professor especializado no Leste Europeu e o porque(esta parte é deliciosa), e qual a motivação para escrever O livro Pós-Guerra. Em geral achamos que grande decisões surgem com grandes insights. Ledo engano.


O que achei mais fantástico é ver o fenomenal Tony Judt como um ser humano, cheio de falhas como todos nós. Bem diferente de muitos intelectuais que conheci, que se proclamam portadores da verdade libertadora, e não possuem um décimo da capacidade intelectual de Judt. Fiquei triste em saber que Tony faleceu em 2010, dois anos depois de descobri-lo. Confesso que estou torcendo para que ele repita Tupac Shakur e produza quase tanto morto quanto em vida. Se não, fica a dica para todos. Um historiador classe A, que consegue te fazer questionar a forma como você vê o mundo, mostrando o mundo para você. “Para o oeste jovem Judt”.

1 forte abraço em todos.

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