• Álvaro Dezidério

Tony Judt e o Mal Ronda a Terra




O Mal Ronda a Terra é um brilhante tratado sobre as insatisfações do presente. Judt apresenta de forma brilhante a construção da Social Democracia (a original, não esta coisa que praticam por aqui), em que os pilares de um Estado de bem estar social, tributação progressiva e participação ativa do Estado na vida dos cidadãos são tratados como fundamentos não negociáveis.


Na verdade o que me encanta nas obras de Tony é a narrativa histórica de como a sociedade chegou a determinado estágio e porque tende a evoluir para um liberalismo, o que, na visão de Judt, é um caminho equivocado que leva ao aumento da miséria e desigualdade. Neste ponto sou obrigado a discordar.


Ele descreve os fatos, a retórica da época, o contexto histórico, e falácias apresentadas para justificar as transformações. É uma obra praticamente completa.


Com um texto denso, porém didático, característica de quem fato está pensando e não apenas reproduzindo, Judt coloca a importância da Social Democracia na sociedade aberta (no sentido de Karl Popper) superando o tradicional conflito entre estas escolhas defendidas pelos políticos de hoje. É brilhante.


O que me é caro e fascinante na obra de Judt é que simplesmente não concordo com o sucesso deste tipo de sociedade. Ainda sou (e cada vez mais) um liberal que acredita em política social ativa, e que as pessoas são responsáveis por suas escolhas, sendo que o papel do Governo é deixar o ponto de partida igual para todos e fornecer segurança social contra eventualidades.


Mas a forma como Tony apresenta seus argumentos e constrói a narrativa me coloca na seguinte situação: “Não concordo com nada que dizes, mas sempre que disseres, paro para te ouvir e admirar e refletir sobre suas palavras”. Na verdade é um exercício de honestidade intelectual. Não concordo, mas acho o conjunto da obra tão bem feito, que não consigo deixar de ler.


Para quem se interessa por política, história, economia, e uma capacidade de raciocínio impressionantemente organizada e completa, recomendo Tony Judt. Sugiro começar pelo Chalé da Memória e depois partir para O Mal Ronda a Terra. A viagem será muito, mas muito, interessante.

1 abraço de quebrar costela.

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